Team Penske — Will Power cruzando a linha de chegada na Indy 500 de 2018
A Team Penske é a maior dinastia do automobilismo americano. Em seis décadas de história, a equipe fundada por Roger Penske acumulou 19 vitórias nas 500 Milhas de Indianápolis, mais de 16 títulos na IndyCar Series, três campeonatos na NASCAR e comprou, em 2020, a própria corrida que mais venceu. Não existe paralelo no automobilismo mundial.

Roger Penske: o homem antes da equipe
Roger S. Penske nasceu em 20 de fevereiro de 1937 em Shaker Heights, Ohio. Filho de um homem de negócios, cresceu com dois amores aparentemente incompatíveis: carros e planilhas. Ainda adolescente, já era obcecado por ambos — e sua vida inteira seria a prova de que eles combinam perfeitamente.
Como piloto, Penske foi genuinamente bom. Não um gênio, mas rápido o suficiente para chamar atenção. Correu na Fórmula Livre, na USAC e na série esportiva norte-americana nos anos 1960. Em 1963, foi eleito Driver of the Year pela Sports Illustrated — uma distinção que qualquer piloto consideraria um pico de carreira.
No entanto, Penske parou de correr em 1965. Tinha 28 anos. A razão não foi lesão, falta de talento ou medo — foi lucidez: ele percebeu que era mais valioso fora do cockpit do que dentro. Enquanto outros pilotos sonhavam com vitórias, Penske sonhava com algo maior.

Os primeiros anos: TransAm, Can-Am e Mark Donohue
Em 1966, Roger Penske fundou a Penske Racing com um parceiro que se tornaria central em toda a história inicial da equipe: Mark Donohue. Engenheiro formado pela Brown University e piloto preciso e metódico, Donohue era o complemento perfeito para Penske. Se Roger era o CEO, Mark era o engenheiro-chefe que também pilotava — uma combinação raramente vista no automobilismo.
Juntos, dominaram a série TransAm no final dos anos 1960 com um Camaro preparado com obsessão técnica que escandalizava os rivais. Penske não só queria vencer — queria entender cada décimo de segundo. O paddock nunca tinha visto nada igual.
Na Can-Am, a série de carros esportivos mais selvagem da época, Donohue e Penske finalmente venceram o campeonato em 1972 com o Porsche 917/30 turbo — um monstro de mais de 1.000 cv que destruiu a competição e levou à extinção da série no ano seguinte. Além disso, em 1972, Donohue também venceu as 500 Milhas de Indianápolis pela Team Penske — a primeira de 19.
A parceria que definiu uma era
A relação entre Penske e Donohue era algo raro no automobilismo: amizade genuína, respeito técnico e ambição compartilhada. Por isso, a morte de Donohue, três anos mais tarde, seria o pior momento da história da equipe.
A Fórmula 1: sonho, tragédia e uma vitória histórica
Em 1974, Roger Penske decidiu que queria a Fórmula 1. Não como cliente comprando um carro de outra equipe — como construtor. A Penske Racing desenhou e fabricou o próprio monoposto: o Penske PC1, projetado pelo engenheiro Geoff Ferris.
Mark Donohue foi o piloto escolhido para a estreia na F1. Porém, em 1975, durante os treinos do GP da Áustria, Donohue sofreu um acidente fatal após um furo no pneu. Infelizmente, morreu dois dias depois no hospital. Tinha apenas 38 anos.
Para qualquer outro, o episódio seria o fim do projeto. Roger Penske não abandonou. Continuou — em homenagem tácita ao amigo e porque desistir nunca fez parte do seu vocabulário.

Em 1976, a equipe voltou com o Penske PC4 e o piloto britânico John Watson. Em 15 de agosto de 1976, no GP da Áustria — exatamente um ano após a morte de Donohue, no mesmo circuito — Watson cruzou a linha de chegada em primeiro lugar. A única vitória da Team Penske na Fórmula 1, conquistada no local mais carregado de significado possível.
A equipe encerrou o programa de F1 ao fim de 1976 — não porque fracassou, mas porque Penske reconheceu que dominar a Fórmula 1 exigia uma estrutura europeia que não fazia sentido estratégico. Assim, voltou para casa. E o que construiu lá, consequentemente, fez qualquer equipe de F1 parecer pequena.
Curiosidade: a única vitória da Penske na F1 foi no mesmo circuito onde, um ano antes, perderam Mark Donohue. Aquele GP da Áustria de 1976 é um dos momentos mais emocionalmente carregados da história do esporte.
A dominância na IndyCar: 19 Indy 500
De volta ao automobilismo americano, a Team Penske construiu a maior dinastia da história da IndyCar — e talvez de qualquer categoria de monopostos no mundo.
Os números são difíceis de absorver: 19 vitórias nas 500 Milhas de Indianápolis (recorde absoluto entre todas as equipes de qualquer esporte a motor) e mais de 16 títulos no campeonato. Nenhuma equipe no automobilismo mundial tem uma relação com uma única corrida tão dominante.
Os campeões da dinastia
Rick Mears — o maior piloto da história da Penske. Quatro títulos IndyCar (1979, 1981, 1982, 1984) e quatro Indy 500 (1979, 1984, 1988, 1991). Preciso, frio e imbatível em qualificação. Considerado o melhor piloto de oval que já existiu.
Al Unser Sr. — tetracampeão que teve duas de suas quatro vitórias na Indy 500 pela Penske (1987). Uma das carreiras mais longas do automobilismo americano.
Danny Sullivan — piloto do famoso “spin and win” na Indy 500 de 1985: girou na liderança, voltou aos boxes, trocou pneus e voltou para vencer. Uma das imagens mais icônicas da história da prova.
Emerson Fittipaldi — o bicampeão mundial de F1 (1972 e 1974) que cruzou o Atlântico e venceu dois títulos IndyCar e duas Indy 500 pela Penske. Uma das carreiras mais completas que o automobilismo já produziu.
Hélio Castroneves — o brasileiro de São Paulo que se tornou um dos maiores ídolos da história do esporte americano. Quatro vitórias na Indy 500 (2001, 2002, 2009 e 2021), recorde absoluto entre pilotos empatado com A.J. Foyt, Al Unser e Rick Mears. Além disso, suas dancinhas no pódio fizeram dele uma celebridade além do automobilismo — chegou a vencer o Dancing With The Stars em 2007.
Nos anos recentes, Josef Newgarden (múltiplo campeão, bicampeão consecutivo da Indy 500 em 2023 e 2024) e Scott McLaughlin mantêm a equipe no topo do grid.
A NASCAR: uma segunda dinastia em paralelo
Enquanto dominava a IndyCar, Roger Penske também construiu uma potência na NASCAR — a série de stock cars mais assistida dos Estados Unidos.
A Team Penske entrou na NASCAR Cup Series em 1991 com Rusty Wallace ao volante. Wallace foi um dos pilotos mais populares dos anos 1990, acumulando 37 vitórias com Penske. No entanto, o pico da equipe viria nas décadas seguintes:
Brad Keselowski conquistou o campeonato NASCAR em 2012 — o primeiro título da Penske em stock cars. Joey Logano seguiu em 2018, num season finale dramático em Homestead-Miami. Por fim, Ryan Blaney completou a sequência em 2023, o terceiro título NASCAR da equipe. Portanto, a Penske é hoje uma das forças dominantes tanto em monopostos quanto em stock cars.
A compra do século: Roger Penske adquire a IndyCar e Indianápolis
Em janeiro de 2020, Roger Penske realizou algo que ninguém jamais pensou ser possível: comprou a IndyCar Series e o Indianapolis Motor Speedway da família Hulman, que controlava o patrimônio histórico desde 1945.

O preço nunca foi divulgado oficialmente — estimativas do setor falam em mais de 300 milhões de dólares. No entanto, o que importou foi o significado: o homem que mais venceu na Indy 500 tornou-se o dono da corrida, do circuito e da série inteira. Em outras palavras, seria como se a Ferrari comprasse a F1 e o circuito de Monza ao mesmo tempo.
Ao contrário do que alguns temiam, Penske não usou a posição para favorecer sua equipe. Fez o oposto: investiu massivamente na infraestrutura do IMS, reformou as instalações e modernizou o paddock. Consequentemente, a IndyCar de hoje é visivelmente mais profissional e global do que era antes da compra.
A Penske Corporation: o império além da pista
No entanto, a Team Penske é apenas a divisão esportiva de um império corporativo que poucos fora dos Estados Unidos conhecem: a Penske Corporation.
No setor automotivo, o Penske Automotive Group é a maior rede de concessionárias de carros de luxo dos Estados Unidos, com mais de 300 pontos de venda em 18 países e faturamento anual de 27 bilhões de dólares.
Além disso, o Penske Truck Leasing opera uma das maiores frotas de veículos comerciais dos EUA, com mais de 400.000 veículos e operações em toda a América do Norte e Europa.
Por fim, o Penske Transportation Solutions cuida da logística e gestão de frotas para empresas Fortune 500. Invisível para o grande público, mas essencial para a economia norte-americana.
Notavelmente, Roger Penske tem hoje mais de 87 anos e segue ativo — não como figura decorativa, mas como executivo que ainda vai ao paddock, conversa com engenheiros e toma decisões. É, portanto, o raro exemplo de um fundador que nunca se afastou do que construiu.
A filosofia Penske: por que a equipe vence tanto
Pergunte a qualquer pessoa do paddock da IndyCar qual é o segredo da Penske e a resposta será quase sempre a mesma: preparação.
A Penske não tem mais dinheiro do que toda a concorrência. O que tem é uma cultura organizacional obcecada por não cometer erros evitáveis. Roger Penske é conhecido por uma frase que resume tudo: “Luck is when preparation meets opportunity.” Sorte é quando a preparação encontra a oportunidade.
Os pitstops são cronometrados nos treinos. Além disso, os carros saem das boxes sem uma marca de óleo, sem um parafuso fora do lugar. Os engenheiros, por sua vez, trabalham horas extras não porque são obrigados, mas porque a cultura da equipe não aceita sair antes de entender o problema. Essa obsessão funcional se traduz, portanto, ano após ano, em troféus.
A Team Penske em 2026
No grid atual da IndyCar, a Penske opera três carros em tempo integral:

#2 — Josef Newgarden: o campeão americano, bicampeão consecutivo da Indy 500, rosto do esporte nos EUA. Newgarden é a personificação do que a Penske busca num piloto: velocidade, inteligência de corrida e capacidade de representar a marca fora da pista.
#3 — Scott McLaughlin: o neozelandês-australiano que foi quíntuplo campeão da Supercars antes de se adaptar à IndyCar com facilidade desconcertante. McLaughlin é o exemplo moderno do piloto Penske: técnico, consistente e absolutamente comprometido com o processo.
#12 — David Malukas: o americano de origem lituana chegou à Penske para 2026 após passagens pela Dale Coyne Racing. Rápido, consistente e com fome de resultados — a nova aposta da equipe para manter os três carros na briga pelo título.
Na NASCAR, os carros #2, #12 e #22 seguem como ameaças constantes ao título — com Ryan Blaney, Joey Logano e Brad Keselowski representando décadas de tradição vencedora. Na IndyCar, portanto, a Penske aposta em Newgarden, McLaughlin e Malukas para continuar a dinastia.
O legado
Roger Penske começou com um Camaro numa pista de TransAm nos anos 1960. Perdeu seu melhor amigo num circuito de Fórmula 1. Venceu a Indy 500 dezenove vezes. Comprou a corrida mais famosa do mundo. Construiu um império de 27 bilhões de dólares. E ainda vai ao paddock nos fins de semana.
Quando os 33 carros cruzam a linha de largada da Indy 500 a cada mês de maio, eles correm no circuito de Roger Penske, num campeonato gerido por Roger Penske, numa corrida que ele venceu mais do que qualquer outro. E três daqueles carros têm o nome dele na lateral.
Não existe paralelo. Nunca existiu.
IndyCar Por Dentro continua. Próximo dossiê: Chip Ganassi Racing. Leia também: guia completo da IndyCar para fãs de F1.
Pilotos Team Penske — IndyCar 2026
| Carro | Piloto | Nac. | Vitórias | Poles | Títulos | Destaque 2026 |
|---|---|---|---|---|---|---|
| #2 | Josef Newgarden 🇺🇸 | EUA | 33 | — | 2× (2017,2019) | 2× vencedor Indy 500 (2023-24) — favorito ao título |
| #3 | Scott McLaughlin 🇳🇿 | Nova Zelândia | 5+ | 11 | — | 3º no campeonato 2023 e 2024 — crescendo a cada temporada |
| #12 | David Malukas 🇺🇸 | EUA | 0 | 1 | — | 1ª pole em Phoenix (mar/26) — rookie na Penske, chegou da Dale Coyne |
Team Penske em números (até abr/2026)
| Estatística | Total |
|---|---|
| Fundação | 1968 |
| Motor | Chevrolet |
| Vitórias IndyCar | 244 (recorde histórico) |
| Títulos IndyCar | 17 |
| Vitórias Indy 500 | 20 (recorde histórico) |
| Poles IndyCar | 305 |
| Campeonatos (todas as séries) | 47 |